“Piorou, pô”: Periferia que votou em Doria ainda espera o gestor prometido

Márcio Ferreira, sapateiro que mora no distrito de José Bonifácio, na periferia da capital paulista, diz estar arrependido. Há um ano, diante de tantas promessas, decidiu apostar na mudança e votar no então empresário João Doria (PSDB) para prefeito de São Paulo.


“Na época ele dizia que era gestor e falava que ia fazer muitas obras aqui na cidade”, recorda. Hoje ele pensa de outro jeito. “Para a gente aqui na zona leste não chegou nada. Ele faz muito marketing, mas olha aí a situação do nosso bairro. Piorou, pô. As ruas estão sem recapeamento, jogadas às traças, as obras do CEU [escola em tempo integral] estão paradas…“, explica. Ele ainda acrescenta: “Doria fala muito do PT, mas acho que, antes de falar de alguém, tem que fazer. E para nós aqui ele não está fazendo nada nada nada. A gente queria uma mudança. Na verdade, mudamos errado”, completa, entre risadas.

Assim como Márcio, a maioria dos moradores do extremo leste de São Paulo optou pelo tucano nas eleições municipais de 2016, acabando com uma hegemonia de décadas do PT nas periferias paulistanas. Só no distrito de José Bonifácio, a 24 quilômetros do centro da cidade, Doria arrematou 29.066 votos (44,62%). Para efeito de comparação, o prefeito e candidato à reeleição do PT, Fernando Haddad, conseguiu 11.974, 18,38% do total. Helton Carlos Lima era um dos muitos que estavam insatisfeitos e que foram atraídos por um candidato que se apresentava como gestor de fora da política, segundo disse a este jornal logo após as eleições. Um ano depois, e 10 meses após o tucano assumir a Prefeitura, este montador de bicicletas ainda é defensor de Doria, mas já mostra sinais de ceticismo.

Ele conta que “esperava mais, pelo que ele falava”. E garante não ter visto mudanças em seu bairro ao longo deste ano. “Vi que ele tem feito algumas coisas na área de lazer, de parques, lá pelo centro. Mas aqui não vi diferença não. Acho que até está pior, porque o pessoal vem reclamando muito do atendimento nos hospitais e postos de saúde. Os médicos se esforçam, mas a demanda é muito grande”, diz ele. Ao mesmo tempo, pondera que Doria leva apenas 10 meses no cargo. Mas sobre o discurso de “gestor”, hoje diz acreditar que é “balela”. “Ele quer tirar o dele da reta com relação aos outros políticos. Mas ele tá no meio, tá junto com os caras. Agora, ainda acho que ele está tentando fazer a diferença. Ele ainda está começando, se continua tentando fazer as coisas…”. Mas acredita que repetiria seu voto, inclusive caso o prefeito tente a Presidência da República.

Helton Carlos Lima.Helton Carlos Lima. J. C.

A empolgação inicial com Doria não estava visível nas quase duas dezenas de relatos escutados pelo EL PAÍS na última terça-feira. A última pesquisa Datafolha também apontou uma queda, nos últimos quatro meses, de nove pontos na aprovação do prefeito, que foi de 41% para 32%. Já os que consideram sua gestão regular aumentaram de 34% para 40%, enquanto os que a consideram ruim ou péssima foram de 22% para 26%. Esta piora foi puxada sobretudo pelos bairros da periferia da capital. Enquanto na nobre zona oeste da cidade 47% consideram sua gestão boa ou ótima, nas zonas norte, leste e sul da cidade este índice varia de 26% a 32%. Além disso, entre os que ganham até dois salários mínimos, 34% consideram o prefeito ruim ou péssimo, segundo o estudo.
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