Intolerância aos intolerantes, algo além do nós e eles

Venho um tempo procurando construir uma argumentação sólida que justifique a intolerância aos intolerantes.

Explicando; porque devemos nos afastar, ou combater propagadores de ideias extremistas? Se afinal, vivemos num Estado Democrático de Direito, e a liberdade de expressão e de crença é garantida por nossa Constituição. Em tempo, insta lembrar que a constituição existe para tentar manter a civilidade do Estado por ela regido.


Pois bem, é justamente por almejar a manutenção – e o aperfeiçoamento – desse Estado Democrático, que os extremistas devem ser evitados e combatidos. Isto porque a democracia é incompatível com a opressão.

Explicando melhor, quem busca perseguir, eliminar, coagir, constranger e oprimir aqueles que lhe são diferentes, não está habilitado a participar da democracia.

Quando fazemos parte de uma vida em sociedade, assinamos um contrato, logo ao nascer e, esse contrato – invisível – determina, em resumo, que quem decidir conviver em sociedade deverá adaptar-se ao convívio pacífico.

Dessa forma, aqueles que propagam extremismos, romperam o contrato.

E por isso, não estão aptos, por não estarem habilitados, a conviver numa sociedade democrática, não podendo, dessa forma nem mesmo ter seus argumentos considerados como social e democraticamente legítimos.

A pacificação social não faz parte apenas de um contrato invisível, mas também é o objetivo do Direito quando é chamado a resolver discussões sociais que são judicializadas.

Por isso, quem propaga o extermínio de diferentes; quem esbraveja de forma agressiva contra ideias contrárias; estes devem ser intolerados por suas intolerâncias.


E ao intolerarmos, não devemos – pelo bom senso que nos sobra – sentir o peso na consciência e nos perguntar se estamos agindo como eles?.

A resposta é Não, justamente porque o bom senso que nos sobra, é o mesmo bom senso que lhes falta. Pois eles romperam o contrato do bom convívio social, nós não. Chega um momento em que não podemos mais protege-los em nome da democracia, mas sim, é a democracia que deve ser protegida deles. E cabe a nós, tolerantes em geral, intolerar aqueles que são tolerantes apenas com eles mesmos.

Fica clara a questão, embora pareça complexa, mas façamos uma analogia com caixas de lápis de cor, eu sou um lápis cinza, talvez você seja um lápis amarelo ou azul, somos diferentes mas somos todos lápis. Podemos tolerar a todos os outros de todas as outras cores, tamanhos e até formatos diferentes. Porém, digamos que o lápis dourado resolva tolerar apenas os lápis dourados, e mandar pra Cuba os lápis vermelhos, e espancar os lápis rosas, e proibir que os outros lápis tenham contato com um lápis que esteja descascado, e bradar que queimemos os lápis que não escrevem da mesma forma que os lápis “bons” escrevem.

Note, será legítimo isolar esse lápis dourado propagador de intolerâncias, pois enquanto eles apontam os dedos para todos os distúrbios ao seu redor, eles não percebem que os verdadeiros distúrbios sociais são eles, mas caberá aos outros lápis perceber isso, e “estancar a sangria”.

Neste giro, há mecanismos de enfrentar, resistir e combater esse surto de intolerância que se dissemina. Lamentavelmente, o diálogo tem se mostrado um caminho árduo e, na maioria das vezes, ineficaz. Talvez, porque o diálogo é um bem tão precioso que parece não ser apreciado por propagadores vorazes de xingamentos e opressões verbais.

Desta forma, evitar maiores embates, principalmente nas redes sociais, pode ser um caminho, e assim, levar os excessos ao conhecimento da Justiça, pois constantemente, no calor de seus instintos, ocorre – de forma natural – apologias a crimes, todo o tipo de injúrias, crimes de ódio, bem como, em suas falas – rotineiramente – figuram crimes de calúnias e difamações aos que os contrariam.

Enfim, não é mais possível, que se aceite calado essa incivilidade irracional, digna de um verdadeiro analfabetismo funcional que tem se mostrado contagioso. É preciso parar essa praga intolerante, recorrendo, inclusive à Justiça, em casos extremos.

Por Fernando Rodrigo Mroskowski. Mestrando em Criminologia pela Universidad de La Empresa – Uruguai. Advogado Criminalista, militante e colunista jurídico do Contra Ponto.