Análise de conjuntura: Ódio, tolerância, Lula e nosso futuro

Contribuição para reflexão da conjuntura – Por José Roberto Paludo

Sobre o ódio e tolerância: como reagir?

Ódio à política não é somente no Brasil mas aqui o alvo é o PT e os petistas. O antipetismo cresceu muito na última década e aqueles que destilam o seu ódio ao Partido dos Trabalhadores são os mesmos que defendem ditadura, são contra políticas sociais e são intolerantes às diferenças religiosas, classe, etnia, gênero etc.


As redes sociais favorecem a propagação desse ódio, porque muitos se sentem protegidos pelo anonimato e postam o que não teriam coragem de falar presencialmente, por isso tanta gente distribui essas mensagens e também porque praticamente 80% do que circula nas redes são mensagens negativas.

Nosso lado é a defesa a democracia, por isso temos que ser tolerantes sem sermos frouxos, temos que saber identificar o antipetista e o intolerante (10% a 15%) daqueles que vão na onda, sem se deixar abalar com as agressões e buscar um diálogo qualificado com base em argumentos, politizar o debate com as pessoas mais simples

Sobre a prisão do Lula e nosso futuro?

Diante da complexidade da crise política, o PT perdeu grande parte da capacidade de liberar o bloco sócio-político de esquerda de massa no Brasil, porém, Lula não. Quando as forças golpistas conseguiram dar golpe 2016 passou a ser estratégica a prisão do Lula senão PT voltaria ainda mais forte. Lula resistiu bravamente, resgatou seu carisma e hoje sua disputa vai muito além das eleições 2018. Lula será um símbolo da luta brasileira e latino-americana como Gandhi foi para a Índia e Mandela para a África, por isso ele não resistiu à prisão. A direita prendeu Lula para fraudar as eleições 2018 mas Lula está disputando algo muito além disso. Não devemos condicionar nosso futuro ao Lula sair da prisão, tampouco às eleições 2018. O que eles dirão para seus filhos?


Golpe 2016 e a economia

A infraestrutura do golpe é a globalização financeira e começou a ter força ainda em 2011 quando a presidenta Dilma decidiu reduzir taxa de juros. A economia não se sustentava mais só pelo aumento do consumo e mesmo com crédito fácil e barato do BNDES a chamada elite do atraso decidiu não investir, esperar os reflexos da crise financeira de 2008 e apostar que governo criaria um déficit e geraria crise, o que não se realizou porque em 2016 havia um recorde de reservas, mas foi a sensação de crise e medo de perda do poder de compra que levou povo na rua apoiar o golpe, uma crise planejada pela elite do atraso.

O outro lado da infraestrutura são as reformas do capitalismo, na sua fase financeira e improdutiva que precisa aumentar lucros e a desigualdade, acabar com papel estado na relação entre capital e trabalho que vem desde 2ª Revolução Industrial como vitoria do sindicalismo e implantar pacote do neoliberalismo 2.0, por isso, Temer é mais cruel que FHC e esse golpe foi pior que 1964, pois, além de solapar a democracia tem cunho entreguista e interrompe a trajetória do Brasil como potencia emergente. Os governos do PT simbolizavam uma barreira para esse neoliberalismo 2.0 na América Latina. O legado do lulismo não são os números dos programas sociais mas duas ideias chave: alguém do povo pode chegar ao maior cargo político sim; o governo pode fazer politica para os de baixo, basta priorizar.


As eleições não são tudo mas tbm são importantes, é preciso reconectar luta social com a luta política e reinventar formas de organização de base aproveitando nossa experiência acumulada.

Em Santa Catarina há uma janela de oportunidades para o PT. Estamos diante do fim do ciclo político da tríplice aliança. A direita vai se dividir e Décio Lima é nosso melhor nome nesse momento por representar a região com maior densidade eleitoral do estado e ter o melhor discurso para animar a militância e disputar o legado do lulismo em SC.

Por José Roberto Paludo – Dr. em Sociologia Política (UFSC) Membro do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo.