Jean Wyllys sobre Eduardo Bolsonaro: “o único que vai para o Conselho de Ética é o veado da Câmara”

Publicado no Facebook de Jean Wyllys.

Nada como um dia após o outro. Aquilo que as pessoas negavam e juravam que não era verdade, que era “vitimismo” ou “mimimi”, ficou hoje tão evidente que não tem como disfarçar. A história, todo o mundo conhece: no dia da votação do impeachment, o deputado Jair Bolsonaro me xingou, usou expressões ofensivas e homofóbicas e fez provocações de todo tipo antes, durante e depois da minha fala.


Eu reagi cuspindo em direção a ele. O filho do fascista, Eduardo, cuspiu também em direção a mim, só que pelas costas, porque é covarde. Eu e ele fomos enviados para o Conselho de Ética por esse fato, que não era idêntico: ambos cuspimos, mas eu fiz isso como reação aos insultos, que não tinham começado naquele dia. Foram muitos anos de xingamentos, ofensas, calúnias e toda sorte de violência.

Já Eduardo Bolsonaro não tinha motivos para cuspir contra mim. Da mesma forma que o pai não tinha motivos nem
justificações para me insultar, caluniar e ameaçar, como fez antes com a deputada Maria do Rosário, com jornalistas (sempre mulheres) e com tantos outros.

Eu passei um ano inteiro no Conselho de Ética. Ameaçaram cassar meu mandato. Depois, falaram em suspensão de quatro meses, punição mais grave que a que sofreu um deputado envolvido em um gravíssimo esquema de corrupção, o único na história do parlamento que foi suspenso. Tive que apresentar testemunhas da violência sofrida. Tive que depor e suportar as provocações dos deputados das bancadas da bala e da Bíblia. Tive que conseguir advogados. Foi um ano inteiro com meu mandato ameaçado pela homofobia institucional da Câmara dos Deputados. Finalmente, fui punido com uma “advertência”.

Mas eles falavam que não era homofobia. Era o cuspe e apenas o cuspe, mais nada. E Papai Noel existe e os bebês vêm de Paris, trazidos por uma cegonha, não é?

Acontece, porém, que se o motivo de toda essa perseguição contra mim, o único deputado que passou um ano no Conselho de Ética de uma Câmara dos Deputados cheia de envolvidos em escândalos de corrupção e outros crimes, fosse apenas o cuspe, então o deputado Eduardo Bolsonaro, que também cuspiu, deveria ter sofrido o mesmo processo e a mesma punição que eu. E ainda mais: ele forjou um vídeo falso contra mim, um crime grave, muito pior que uma cusparada!

Sim: Eduardo Bolsonaro manipulou um vídeo de uma sessão da Câmara dos Deputados com o firme propósito de enganar os membros do Conselho de Ética para que cassassem meu mandato, fato em que só não obteve êxito porque foi desmascarado por uma perícia da Polícia Civil.

E o que é que aconteceu? A representação contra Eduardo Bolsonaro pelo cuspe e pelo vídeo falso foi arquivada em dez minutos, sem processo, sem advogado, sem testemunhas, sem debate, sem punição, sem manchetes nos jornais, sem reportagem no noticiário. Da mesma forma que quando o pai dele disse que não estupraria Maria do Rosário porque “não merece, porque é feia” e também não foi punido. E tantas outras vezes…

O único que vai para o Conselho de Ética é o viado da Câmara. O meu crime foi ser homossexual numa Casa de “homens de bem”.

Os parágrafos acima resumem a notícia que não saiu em nenhum jornal. Sim, alguns noticiaram brevemente o mínimo, tentando parecer imparciais: que eu fui punido, que ele não. Mas não foram capazes de noticiar, analisar e explicar o mais importante que a notícia revelava, e que uma imprensa séria e profissional deveria dizer: que o verdadeiro motivo do processo contra mim (agora sim está provado empiricamente) foi o fato de eu ser gay! Aliás, no caso da Folha de São Paulo sequer a foto que ilustra a insossa matéria é a do filho do fascista cuspindo. Optaram por usar a minha. Terá sido vontade de clicks ou de estigmatizar a bicha mais uma vez?

Não tem outra explicação para a punição contra mim e o arquivamento sumário da representação contra ele, mas isso, tão óbvio e claro, ninguém quer assumir. Significaria ter que se olhar no espelho e não gostar da imagem que ele reflete.

Então, melhor fingir cegueira e continuar tocando a vida. Porque no Brasil não tem homofobia, não é?